Window in the skies - U2
O U2 já apareceu aqui antes, exaltando o amor num pedido de desculpas megalomaníaco. Dessa vez a exaltação é de outra coisa, que pros caras do U2 se confunde com o próprio amor: a música!
Window in the skies tem uma letra sobre o poder de transformação do amor, o que ele é capaz de fazer. No clipe isso é mostrado de algumas maneiras, incluindo uma bem enfática, a ser destacada mais adiante. Mas mais do que isso, o vídeo é uma homenagem aberta à música, a quem a faz e a quem a ama.
Uma grande montagem de cenas de arquivo, o clipe é basicamente isso, seria simplório se não fosse um apanhado de gerações e gerações de músicos, montados de maneira a simular que todos estão executando juntos a canção. Aí está a mágina desse clipe, é impossível não se cativar com a forma que Stewie Wonder, Kurt Cobain, Frank Sinatra e tantos outros aparecem unidos pela edição, cantando essa ode ao amor. Há quem possa chamar de pretensiosa a ideia da banda de colocar dezenas dos mais importantes nomes da história da música pop pra cantar uma música sua, como argumento pra isso vale a presença do próprio U2 no vídeo, não tocando, mas no meio do público, em aparições discretas e até meio difíceis de encontrar a primeira assistida.
Há também o uso de motion graphics para representar o tal poder do amor que Bono (e todo mundo) canta, nas mãos de crianças, num campo de flores, nos próprios músicos e no exemplo maior que citei anteriormente: A bomba atômica. A bomba atômica ao contrário! O amor sendo capaz de desfazer a explosão da grande bomba é talvez a mensagem mais clara da intenção da banda com a música, e é bastante bonito ver como as imagens se intercalam no vídeo, com efeitos de tape sendo cortado e emendado, batendo com os tempos da música.
Infelizmente, ausências sempre acabam acontecendo nessas situações de juntar muitas referências. Nesse caso, até entraves de direitos autorais aconteceram. No fim das contas, sente-se falta de imagens dos Beatles e de Freddie Mercury, por exemplo, mas se a mensagem da música for levada a sério, não dá pra considerar que eles não estejam todos lá tocando juntos também.
por Rafael
Mad World - Gary Jules
O primeiro contato que tive com a música Mad World foi no ótimo filme Donnie Darko. Lembro de já ter achado a canção muito bonita. Só fui saber bem depois, porém, que se tratava de um cover! E um cover do Tears for Fears! Fiquei fascinado, não só pela diferença entre as duas (já que a original é de sonoridade bem característica do duo inglês e o cover não deixa o menor rastro musical da versão anterior) como também pela capacidade de Gary Jules em transformar de forma tão radical uma música de timbres praticamente autorais, como são as do Tears for Fears.
Voltando ao videoclipe, ele é dirigido por ninguém menos que Michel Gondry, que é deus um dos diretores auiovisuais mais aclamados nos dias de hoje. E como sempre, o francês resolve a obra com muita sensibilidade e criatividade. Vale dizer que a criatividade nesse clipe não é mostrada através de suas engenhosidades para criar paradoxos visuais e montagens inusitadas, mas através da simplicidade e beleza do plano-sequência coreografado filmado de cima com uma grua perfeita.
Trata-se de uma coreografia de crianças que, após um sinal de escola, saem para a calçada e ali mesmo começam a se movimentar ordenadamente, formando diversas figuras com animações próprias. Todas sempre simples e infantis: Um rosto, uma pessoa, uma casa, um pássaro…
A câmera, sempre de cima, acompanha melancolicamente tudo isso, em movimentos lentos e despretensiosos. Por momentos, sai do grupo de crianças e olha a seu redor, vendo as construções e pessoas nas proximidades e até a cobertura do prédio sob o qual tudo acontece, onde encontra Gary Jules, que observa a movimentação cantando a letra da música. Letra essa de temática infantil (e depressiva) que juntamente com as crianças, as figuras em movimento formadas por elas, os belos movimentos da câmera e a melodia triste e tranquila de Gary, compõe um espetáculo visual e auditivo, desses que deixa a gente com uma tristeza bonita que é até felicidade.
É um clipe que flui quase que sem resistência alguma, e que te leva entre movimentos de pessoas e movimentos de câmera, entre olhar para baixo e olhar ao redor, e quando você se dá conta já o assistiu inteiro, tendo como presente uma das imagens mais marcantes e bonitas que eu já vi em videoclipes: Gary num piano do outro lado da cobertura do prédio, com a cidade ao fundo. Um quadro final perfeito pra um clipe único.
por João R.
Low Rising - The Swell Season
Você provavelmente só conhece a dupla The Swell Season se assistiu ao filme irlandês independente “Once” (vencedor do Oscar de melhor canção original em 2008). Formada por Glen Hansard (músico irlandês da banda The Frames,) e Marketa Irglova (pianista e cantora tcheca), a dupla lançou em 2009 seu terceiro CD, “Strict Joy”, o primeiro depois de “Once”.
Low Rising, o primeiro videoclipe deste CD, não é nenhuma super produção. O que vemos é um casal que claramente está desiludido, talvez pelo cansaço um do outro, pela rotina. Inclusive a letra trata da mesma condição: um cara que quer conversar com a parceira para descobrir o que está acontecendo no elacionamento e poder mudar.
O bonito aqui é a maneira como é mostrada que essa desilusão está constantemente presente nos pensamentos do casal: uma chuva acompanha cada um durante suas atividades rotineiras - lendo jornal, tomando café da manhã, fazendo chá - inundando tudo o que eles fazem durante todo o vídeo.
No entanto, assim como na música, o final traz um pouco de esperança quando eles saem de casa e vêem que está chovendo em todos os lugares, e não só neles. Os sorrisos e o abraço trocados fazem parecer que no final das contas tudo vai ficar bem.
por Mariah
Reflections of a sound - Silverchair
Piet Mondrian (1872-1944) foi um pintor holandês. Figura de destaque no Neoplasticismo, suas obras mais célebres são formadas por retângulos brancos, azuis, amarelos e vermelhos.
O Silverchair devia estar estudando bastante Mondrian quando fez Young Modern, disco que lançou em 2007, cuja capa mostra uma obra do pintor recriada em 3D. As capas dos singles também exploram esse estilo, Assim como o clipe de Reflections of a sound. O clipe, aliás, vai bem além.
Estão no vídeo referências a Leonardo Da Vinci, Andy Warhol, René Magritte, Salvador Dali, entre outros; tudo enquadrado nos retângulos de Mondrian. A apropriação que o Silverchair faz de tantos artistas anteriores é um ótimo exemplo de como escancarar suas referências e criar ainda assim uma peça original.
Quanto à relação com a música, também vai muito bem, principalmente pelo crescimento da complexidade de imagens durante o vídeo.
E pode ser difícil de reconhecer se seu último contato com o Silverchair foi na época do Frogstomp, mas acredite, é a mesma banda.
por Rafael
Something - The Beatles
Os Beatles sabiam falar de amor; desde o começo da carreira dissecaram o tema de diversas formas, então quando foram fazer seu último disco já dominavam o assunto como poucos. Diversos exemplos disso estão em Abbey Road, citando alguns: She’s so heavy; Oh, Darling; Octopus Garden; e no derradeiro verso the love you take is equal to the love you make.
Exemplo nenhum, porém, fala melhor de amor do que Something, canção de George Harrison que é um marco no que diz respeito a música romântica, sendo a segunda música dos Beatles mais tocada por outros artistas - perde pra Yesterday - incluindo na lista alguns nomes como Elvis Presley, Julio Iglesias e Frank Sinatra. Sinatra inclusive se referia a Something como “the greatest love song ever written”
Imagino que quando foram fazer um vídeo pro lançamento dessa música, sabiam que era de amor que estava se tratando ali, e a saída foi certeira: imagens dos Beatles com suas respectivas companheiras na época. John e Yoko, Paul e Linda, Ringo e Maureen e evidentemente George e Pattie. Os olhares de companheirismo, admiração e alegria que os casais demonstram são tocantes, ornando perfeitamente com o clima da canção.
Um clipe exemplar no que diz respeito a mostrar com imagens o conteúdo da música; e sendo essa a música, só podia ser assim mesmo.
por Rafael
Sweetest Thing - U2
Tudo começou quando Bono, o frontman do U2 (como se eu precisasse esclarecer isso), passou o dia inteiro no estúdio. Em pleno aniversário de sua esposa.
Como a mulher deve ter ficado minimamente magoada (pra não dizer absurdamente irritada), ele decidiu se desculpar como manda a cartilha do rockstar: Fazendo um clipe incrível.
O clipe começa com a esposa de Bono, Alison Hewson, sentando em uma espécie de charrete e olhando para ele, que é mostrado no primeiro e único corte do video. Desse ponto em diante, a tomada é a mesma até o final: Uma subjetiva de Ali, ou seja, a câmera representando a visão da mulher, de seu ponto de vista na cena.
E é aí que a magia acontece: A charrete começa a andar, Bono começa a fazer suas gracinhas e na rua, durante o percurso inteiro, inúmeras intervenções acontecem, sempre em sincronia com a música e direcionadas para Alison, reforçando o pedido de desculpas.
Faixas suspensas com pedidos de desculpas, uma banda marcial, o Boyzone fazendo o coro da música, os outros integrantes do U2 em outro carro, um treinador de boxe incentivando Bono como faria com seu atleta, bombeiros dançando em cima do caminhão, um coração desenhado no céu, um cachorrinho de pelúcia (pra amolecer o coração da moça caso nada a impressionasse), diversos tipos de dancarinos e artistas, um garçom (???), UM ELEFANTE e o mais incrível: Bono sem óculos. Tudo isso (e muito mais) aparece calculadamente em determinados instantes do clipe, formando uma coreografia que percorre uma rua, novamente, sem cortes (o que garante, narrativamente, a colocação de Alison como espectadora única de uma cena real direcionada especificamente a ela).
Por fim, num gracejo audiovisual, a música acaba e, sem som nenhum, vemos apenas a boca de Bono se mexer num claro “I’m Sorry”.
Um belo clipe, um belo plano-sequência, um belo pedido de desculpas.
por João R.
Preta - Cordel do Fogo Encantado
O Cordel do Fogo Encantado sempre chamou atenção por sua singularidade. A formação da banda já chama atenção - voz, violão, três percussionistas. A performance de palco era ainda mais impressionante (era, porque a banda chegou ao fim em 2010), graças à teatralidade do vocalista Lirinha aliada ao impacto sonoro que eram capazes de produzir.
A canção desse videoclipe, Preta, é uma exceção na obra da banda, praticamente um acalanto se comparada à batucada enérgica que marcou a trajetória do grupo. O vídeo consegue passar muito bem para imagens o clima da música, através de uma linguagem tão bem utilizada no mundo dos videoclipes, a animação.
A mistura de texturas, cores e traços - ora remetendo ao cordel, ora em rotoscopias que preservam perfeitamente a proporção corporal dos músicos - traduzem em desenho a singularidade da banda, que tão bem unia o poder dos tambores com a melodia das cordas do violão.
E mesmo que desconsiderássemos as relações entre estética visual e sonora, continuaríamos tendo um excelente vídeo, graças ao espetacular trabalho de giz de cera, tanto no que diz respeito a traços quanto na escolha de cores, deste vídeo de Bruno Mazzilli.
por Rafael
Praise You - Fatboy Slim
Este clipe, bem conhecido mundo afora, foi dirigido por Spike Jonze (Quero Ser John Malkovich). Mas não era isso que o próprio clipe dizia.
Logo na abertura com fontes bem feias e caseira o que nos é apresentado é o nome Torrance Community Dance Group, que teoricamente é o grupo que realiza a performance do clipe. O vídeo, inclusive, é creditado assim: a Torrance Public Film Productions, deixando Jonze intencionalmente anônimo. Inclusive, quando o clipe ganhou o VMA de Melhor Direção, o premiado foi o “Grupo de Dança da Comunidade de Torrance” (e não Spike Jonze). Naquele ano, Praise You também faturou Melhor Clipe Revelação e Melhor Coreografia, e ainda foi indicado a Melhor Clipe.
Quanto ao conteúdo do clipe: Praise You, à primeira vista, parece se tratar de um flash-mob de um grupo de pessoas que chega em determinado local e começa a dançar. E foi exatamente isso que aconteceu. O “Grupo de Dança da Comunidade de Torrance” se reuniu em frente a um cinema em Westwood (na Califórnia), e começou a executar uma coreografia para a música do Fatboy Slim. Um dos integrantes executava movimentos “principais” e os outros o seguiam ou complementavam seus movimentos. Esse “líder”? Sim, Spike Jonze, anonimamente.
Já Fatboy Slim mal aparece (sim, ele aparece!) no vídeo. Do mesmo modo que Jonze, anonimamente. O músico é um dos muitos observadores, e garante seu tempo de destaque durante o depoimento final do “líder” do grupo de dança, passando por trás dele e se entortando para ser visto pela câmera.
Praise You, como todo flash-mob, estava sujeito a qualquer problema. E aconteceu: Em determinado momento do clipe o dono do cinema que estava sendo ocupado pela intervenção, que claramente não foi avisado ou contatado, simplesmente desliga o rádio. A reação de Jonze e a continuação do clipe o deixam ainda mais especial.
No fim das contas, Praise You é um videoclipe que ficou marcado por seu aspecto caseiro intencional, e por ser um flash-mob verdadeiro executado por pessoas falsas: O Grupo de Dança da Comunidade de Torrance.
por João R.
Short Skirt, Long Jacket - Cake
Existem muitas maneiras de se fazer um clipe. Alguns são grandes produções cinematográficas, outros são animações, há os engraçados, os que são registros ao vivo, entre outros tantos.
Este é um daqueles clipes que são fruto de uma ideia simples, porém certeira. A ideia aqui serviria para praticamente qualquer música a que fosse aplicada, é o seguinte: mostrar a música para anônimos e gravar suas reações à primeira audição.
A partir disso, claro que a edição - sempre a edição! - é o que faz a coisa virar um clipe mesmo, intercala opiniões divergentes, danças, caretas, e o mais interessante, deixa clara a variedade de pessoas abordadas, tem gente de toda cor, tamanho, idade, estilo, etc. Nada combinaria mais com o cake do que essa mistura toda.
por Rafael
The Hardest Button to Button - The White Stripes
Esse post estreia 2 assuntos que serão recorrentes (e muitas vezes nos mesmos posts) nesse blog: Michel Gondry e The White Stripes.
Essa parceria figura seguramente em qualquer estudo atual sobre videoclipes. Não só porque sempre inovam musical e visualmente (e “videoclipticamente”, pelas formas como juntam som e imagens) mas também porque os clipes que o Gondry fez pros Stripes sempre são muito legais!
The Hardest Button to Button, assim como a maioria dos clipes do diretor francês, vem de uma ideia muito simples. No caso, “vamos ‘clonar’ os instrumentos no ritmo da música?” Vamos, lógico, Michel.
Outra característica de suas realizações também presente aqui é a “simplicidade” da execução dos efeitos visuais. Gondry costuma resolver suas maluquices sem efeitos de pós, ou seja, faz a coisa acontecer de verdade, na frente da câmera, analogicamente. Faz pessoas grandes ficarem pequenas simplesmente pelo desenho do cenário, por exemplo. E nesse clipe não foi diferente. “Vamos clonar?” Vamos! Cada bateria, cada amplificador, cada cabo que aparece a mais a cada nota ou batida realmente estava lá.
Com isso, Gondry fez uma espécie de stop-motion em vídeo, uma vez que ia alterando o quadro não frame a frame, mas sim nota a nota. E o espaço individual de cada nota não é uma fotografia congelada, e sim o movimento da filmagem daquele quadro.
por João R.